• Do Norte Ao Norte

A viagem começou: Manaus a Belém de Balsa

5 dias descendo o Rio Amazonas

Sim, meus amigos! A nossa viagem de carro, começou em cima de uma balsa. Imaginem só: estávamos completamente ansiosos com tudo isso. Como seria a nossa vida dali pra frente, se iríamos sobreviver um mês que fosse com essa nova vida. Depois de 2 anos de planejamento e espera, finalmente chegou o grande dia! Estávamos loucos pra sair dirigindo pelas estradas, sem rumo... Mas calma jovens, que pra sair de Manaus só temos duas opções:


1- avião, óbvio.

2 – barco/balsa.

Infelizmente a falta e precariedade de estradas no nosso estado, é uma triste realidade. Enfim, vamos voltando ao assunto viagem, pois esse não é o tema do post.


QUER SABER COMO FUNCIONA E QUANTO CUSTA ESSA TRAVESSIA, CLIQUE AQUI.

Fizemos um post e um vídeo explicando como funciona tudo, caso você queira fazer essa travessia. Lembrando que é um tema pouco explorado, portanto algumas informações podem estar ultrapassadas ou ter mudado tudo :x



Eram por voltas das 19:30h da noite do dia 11 de novembro de 2016, quando finalmente saímos de Manaus.Entramos na balsa com o nosso carro e dali a balsa saiu em direção a Belém. Nem sabíamos exatamente quanto tempo essa viagem toda iria durar, até porque são cerca de 1650km, atravessando o maior rio do mundo, o Rio Amazonas.


Primeira coisa que fizemos, claro, foi fazer amizade com os caminhoneiros, nossos primeiros amigos de viagem.

João, Raimundo, Walter e Wagner. Nossos amigos nessa travessia.

Conversa vai e conversa vem. Um dos caminhoneiros mais experientes, o Raimundo que sempre faz essa viagem já lança logo:

- Ahh! Não gosto de ficar na ponta da balsa não!

Eu pergunto: - Porque, Raimundo?

Ele:- Ah, rapaz! De vez em quando o motora dorme, e a gente bate no barranco e entra na floresta com caminhão e tudo!

Eu:- Ah tá! Bom saber!


Amigos, vocês já entenderam né? O nosso carro ficou bem na ponta da balsa, éramos os primeiros a entrar no barranco caso isso acontecesse.

Depois de mais e mais, mas pensem que foi muita conversa, fomos dormir. Ahh, dormir! Taí uma coisa que quase não aconteceu direito nesses 5 dias. Primeira noite, eu (Elka) enjoei um pouco. Não soube se era do pequeno, mínimo, quase que imperceptível balanço da balsa, ou se era um misto de ansiedade, medo ou seja lá qual for o outro sintoma da nossa louca cabeça, não é mesmo? Tomei remédio de enjoo, daqueles que parece que tomamos um sedativo de cavalo, e bodei.

Acordamos cedo, pois na balsa existe a seguinte regra na cozinha:

- Café da manhã às 5h

- Almoço às 10h

- Janta às 18h

E sempre quem come primeiro é a tripulação. Tomamos nosso cafezinho, bem simples, mas tudo muito gostoso feito pela simpaticíssima Dona Val, a cozinheira da balsa, que já trabalha nisso há mais de 20 anos.

Trocamos mais ideias ao longo do dia com nossos amigos caminhoneiros, fizemos outras coisas e também não fizemos nada. O tédio anda com você de mãos dadas nessa viagem.

Na verdade o tédio só ocorre durante o dia, porque a noite, meus amigos, é que a aventura começa.Numa dessas conversas com nossos amigos, descobrimos o que? Ataques de piratas! Sim! Ataque de pirata! Mas esqueçam o Jack Sparrol, esqueçam os navios gigantes, os tapa olhos e tudo que envolve o que conhecemos nos filmes e histórias.

Os piratas são reais nessas regiões: http://economia.estadao.com.br/noticias/geral,piratas-saqueiam-r-100-milhoes-por-ano-na-amazonia,70001900595

http://g1.globo.com/am/amazonas/noticia/2015/05/piratas-causam-panico-e-mortes-em-rios-e-embarcacoes-no-am-ro-e-pa.html

https://www.terra.com.br/noticias/brasil/policia/ataques-de-piratas-deixam-mortos-em-rios-de-am-pa-e-ro,defa372559eab5980a341bb5060858b8lvh0RCRD.html

E o que eles fazem? Assaltam as carretas carregadas de produtos que saem da Zona Franca de Manaus, principalmente eletrônicos. Nessa balsa que viajamos tinha mais de 50 carretas.

Voltando pra história. Imaginem a nossa cara, tudo que passava na nossa cabeça? E outra, os piratas não só entravam na balsa e assaltavam de boa as carretas. A Dona Val mesmo, nos contou que já ficou presa com toda a tripulação (umas 10 pessoas) dentro do banheiro, e os piratas fazendo a rapa. Isso ainda é de boa, comparado a quando, quase sempre tem a troca de tiro. Porque a outra regra dos seguranças é: atracou na balsa e não deu sinal no rádio, a ordem é atirar!

Foi chegando a noite e medo, claro, foi aumentando. Pensei: como que consegue dormir? Qualquer barulho a gente acordava. Qualquer barulho mesmo! Paramos de sentir o vento entrando no carro. Eu acordei, Luis também, olhamos um pro outro e dissemos: A balsa parou? (Gente! A balsa andava a mais ou menos 10km/hr. Tinha vezes que não dava mesmo pra saber se ela tava andando ou parada).


Sim! A balsa parou. Depois ouvimos uma batida. Meu coração veio aonde? Ai mesmo onde você tá imaginando. Ouvimos vozes, não sabíamos mesmo o que tava acontecendo. Depois de um tempo, tudo silencio e o vento voltou a entrar pela porta de trás do carro. O sono era maior e só pensamos que realmente não deveria ter sido nada grave.

No outro dia, a primeira coisa que fizemos foi procurar saber porque a balsa tinha parado na noite anterior. A Dona Val, claro, sabia de tudo e nos disse que era só para trocar alimento com outra balsa que estava fazendo o caminho inverso. Ufa! Nada demais! Por enquanto. Seguimos apreciando a paisagem, a grandiosidade desse lugar, a grandiosidade desse rio. Tudo é lindo. E apesar de já estarmos acostumados com essa realidade de ribeirinhos, florestas e rios, tudo era muito diferente. Uma das coisas mais comuns nessa viagem é a venda de produtos: peixe, açaí, cerveja e claro, mulher.A prostituição na balsa é algo comum. E comum também é a troca. Nesse caso, o sexo custa R$50 ou 20L de Diesel. Em outros casos, um isopor quase cheio de peixe por R$50 ou um frango inteiro, ou um pedaço de carne.

E muitas dessas situações doem nossos corações, a cabeça pira. Quando pra gente é tão comum um pedaço de frango, ou um pedaço de carne, pra eles aquilo era ouro. Numa imensidão daquela de fauna e flora, o açaí fresco e natural, o peixe que muitas vezes pagamos caro nas feiras, ali vira rotina, vira mais do mesmo.

Mas nada dói mais o coração do que ver as crianças ribeirinhas pedindo comida, roupa, biscoito.. qualquer coisa. Elas avistam a balsa de longe, e com uma técnica absurda, saem correndo com a sua canoa e remando em direção a balsa. Buscamos no carro o que podemos jogar pra elas. Biscoito, leite, fruta (ver vídeo abaixo). Dá vontade de jogar o carro inteiro no rio pra eles. Isso é muito triste.



Lá pelo terceiro dia, você meio que já se acostuma aquilo tudo. A rotina dos horários das refeições, aos novos amigos que sempre tem boas histórias pra compartilhar. Vai tudo se encaixando e você só pensa em: só faltam mais dois dias, acho que não pode acontecer mais nada. Hahahaha, como que a confiança engana a gente né?


No terceiro dia de viagem, entram 2 seguranças na balsa, e o que a gente faz? Se pergunta porque né? Porque simplesmente, meu amigos, a partir dali entraríamos no Estreito de Breves, o lugar mais perigoso de toda a viagem. O Estreito de Breves, fica localizado no estado do Pará, e é ali o ponto vermelho, a área onde acontecem quase todos os assaltos dos piratas. Volta todo o medo e ansiedade, mais sedativo de cavalo pra dormir.

Passamos pelo estreito sem riscos, mas ficamos sabendo que possivelmente uma balsa que estava na nossa frente foi assaltada. Não sabemos se foi verdade ou não, eu preferi acreditar que era mais história dos seguranças pra deixar a gente com medo Ahh! Coitados desse meninos de cidade grande, criado em apartamento e leite com pêra.

Prontos pro quarto e teoricamente o último dia. Tudo corria bem, mais uma vez a rotina se repetia, até que a balsa para novamente e dessa vez não foi para trocar alimento, mas sim porque o combustível tinha acabado. Não, não! Parecia mentira! Estávamos no meio do nada, as margens do rio, NO MEIO DO NADA.

Vamos esperar! Segundo a Dona Val, isso sempre acontece. Absurdo, mas é verdade.Passam-se algumas horas, 3 ou 4 talvez. Nada e nem ninguém aparece com o diesel. Porque? Depois de quase 12 horas ali, finalmente aparece um barco trazendo o restante do diesel para completar a viagem. Bom, combustível no seu devido lugar vamos partir né? Não, não era pra ter partido naquele momento.

Nessa hora que ligam a balsa, eu estava na cozinha e Dona Val olha pra mim e fala:

- A balsa tá saindo?

- Tá sim! Deixa eu ver...

Vou lá fora e penso: Graaaças!

- Ela tá saindo sim, Dona Val


Ela olha pra mim com cara meio que de arrependida e diz:

- Pois se prepara, porque agora o bicho vai pegar!

- Porque Dona Val?

- Porque o rio tá subindo, e a partir desse ponto aqui a gente entra na baia do Marajó.

Donal Val me explica que: se a balsa entra na baia com o rio enchendo e o mar que está secando, encontrar com ele, é uma das piores coisas que acontecem na viagem. Pasmem! Esqueçam os piratas.

Registramos da balsa a super-lua que apareceu no final de 2016

Foi dito e feito! Chega a noite e até ai tudo bem. Fato é que a balsa começou a balançar mais que o normal, mas nada demais. O Raimundo, caminhoneiro mais experiente, já deve ter feito essa viagem umas 50 vezes, logo entrou no caminhão. Os ingênuos ainda ficam ali, bem na ponta da balsa conversando, até que, do nada, meu amigos, do nada, de um minuto pro outro, começa a bater onda na frente da balsa, começa a molhar todo mundo. A gente só pensa em fazer o mesmo que o Raimundo e entrar no carro.


Meu amigos, eu não sei nem como descrever essa parte da história, porque sabe aquela sensação que é tão pessoal, que pra você que tá lendo pode parecer exagero, mas é que ali, realmente eu pensei que a balsa iria afundar, que as carretas iriam cair em cima do carro ou que o carro iria cair na agua. As ondas eram tão grandes que elas cobriam o carro, e não, eu não estou exagerando. Eu falei pro Luis: tá louco que eu vou ficar aqui dentro do carro. E se esse carro cai dentro da água com a gente aqui. Não! Se eu fico la fora, pelo menos sei nadar, sei lá!

Saímos do carro e fomos pro baú do caminhão de um dos nossos amigos. O barulho da água batendo na chapa da balsa era ensurdecedor. O movimento que a balsa fazia era absurdo. A gente realmente só tava na espera daquilo tudo virar. Mas eu pedi tanto para aquilo não acontecer, pedi tanto, que acho que nunca mais vou ter direito de pedir mais nada na minha vida, apenas agradecer.

Depois de umas duas horas, a gente se acostumou com tudo aquilo. Não que tivesse diminuído, mas é que realmente a gente se acostumou e pegamos no sono, ali mesmo, no baú do caminhão dos nossos amigos Wagner e Walter.O dia amanheceu e como num passe de mágicas, às 7h da manhã já estávamos no porto de Belém. Nossa! Como era bom estar em terras firmes, vocês não fazem ideia. Agora sim! Prontos para mais aventuras e desbravar todo esse nosso Brasil!




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